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Nicodemos Sena
(Jornalista)
08-07-1958, Santarém, Pará


NICODEMOS SENA - Romancista da Amazônia


Nicodemos Sena nasceu no dia 8 de julho de 1958, em Santarém, Pará, Amazônia brasileira. Passou parte de sua infância entre os índios maués, na região de fronteira entre os estados do Pará e Amazonas, experiência que para sempre o marcaria. Em 1977, veio para São Paulo, onde se formou em Jornalismo, pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), e em Direito, pela USP (Uni-versidade de São Paulo).
Em 1999, estreou com o romance “A espera do nunca mais – uma saga a-mazônica” (Editora Cejup, Belém, PA, 876 páginas).
Em 2000, “A espera do nunca mais” conquistou o Prêmio Lima Barre-to/Brasil 500 Anos, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro).
Seu segundo romance, “A noite é dos pássaros” (Editora Cejup, 136 pág., 2003), foi primeiramente publicado em forma de folhetim, no jornal “O Estado do Tapajós” (Pará, Brasil) e na revista eletrônica portuguesa “TriploV”.
Nicodemos Sena aparece no Dossier Amazónico publicado na revista literá-ria portuguesa “Construções Portuárias” (nº01, 2002), no qual um trecho de “A noi-te é dos pássaros” foi incluído, ao lado de importantes escritores da Amazônia, co-mo Max Martins, João de Jesus Paes Loureiro, Vicente Franz Cecim, Age de Carvalho, Benedicto Monteiro e Benedito Nunes.
Fragmentos de “A noite é dos pássaros” foram publicados nas revistas “Palavra em Mutação” (nº02, 2003) e “Storm-Magazine”, ambas de Portugal. Em 2003, “A noite é dos pássaros” conquistou o prêmio Lúcio Cardoso, da Academia Mineira de Letras, e, em 2004, Menção Honrosa no prêmio José Lins do Rego, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro).
Os romances de Nicodemos Sena mereceram comentários em grandes jor-nais do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Goiânia, Brasília e Belém do Pará (“O Globo”, “O Estado de São Paulo”, “Jornal da Tarde”, “Estado de Minas”, “Hoje em Dia”, “A Tarde”, “O Liberal”, “Jornal Opção”, “Caderno Bra-sília”) e da Cidade do Porto, em Portugal (“O Primeiro de Janeiro”).
Sobre a ficção de Nicodemos Sena já se manifestaram importantes críticos e escritores brasileiros, entre os quais Antonio Olinto, Nelly Novaes Coelho, Olga Savary, Fábio Lucas, Oscar D’Ambrosio, Antonio Carlos Secchin, Dirce Lorimier Fernandes, Ronaldo Cagiano, Acyr Castro, Manoel Hygino dos Santos, Nelson Hoffmann, Carlos Nejar, Tanussi Cardoso e Adelto Gonçalves.
Nicodemos Sena vem sendo considerado a revelação da literatura amazônica nos últimos anos, tornando-se verbete na “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (edição conjunta da Global Editora, Fundação Biblioteca Nacional, DNL, Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2001).
A obra ficcional de Nicodemos Sena expressa o conflito étnico-cultural en-tre dois mundos – o do colonizador europeu e o do índio autóctone. Por seu estilo vigoroso e a temática inspirada na vida das populações marginalizadas da Amazônia (índios e caboclos), a crítica já comparou esse romancista da Amazônia a grandes ficcionistas brasileiros, como Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro, Mário de Andrade e Érico Veríssimo, e a importantes ficcionistas latino-americanos, como o paraguaio Augusto Roa Bastos e o peruano José María Arguedas.



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Nicodemos Sena
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Uma extensa e densa aula de Amazônia

Por OSCAR D’AMBROSIO*
("Jornal da Tarde", Caderno de Sábado, 20/05/2000, São Paulo)


A crítica literária é unânime em considerar “Vidas Secas”, do alagoano Graciliano Ramos, como uma das mais im-portantes obras já escritas em língua portuguesa. O maior argumento é que o livro, principalmente em seu estilo, é um retrato do Nordeste brasileiro. A história de Fabiano, Sinhá Vitória, os meninos e a cadela Baleia fica em segundo plano perante o vocabulário conciso e o fraseado árido análogo à seca do sertão.
“A espera do nunca mais”, romance de estréia de Nicodemos Sena, paraense de Santarém, realiza fenômeno semelhante com a Amazônia. A saga dos caboclos da família Bagata é o menos importante perante a prosa voluptuosa de um autor que conseguiu desenvolver um estilo que permite ao leitor visualizar a forma de ser das pessoas que habitam o Norte do País.
A crítica local não economizou elogios e o vem considerando a maior revelação da literatura regional nos últimos anos. O entusiasmo se justifica. No intenso trabalho de escrever e aprimorar seu estilo, Sena conseguiu fugir dos estereó-tipos que cercam a Amazônia. Seu grande medo, como confessa em entrevistas, era cair no exotismo que geralmente devora aqueles que se aventuram a escrever sobre a região. O resultado final, no entanto, atinge plenamente a busca de um estilo próprio de se debruçar sobre os homens e os problemas amazônicos.
Embora a Amazônia domine a narrativa, principalmente pelo vocabulário específico, que demandou a elaboração de um glossário incluído ao final do livro, há uma personagem que merece uma atenção especial, Diana. Ela é a grande figura feminina da obra – encarna as qualidades e mistérios intrínsecos da região amazônica, pois seu fascínio arrebata, mas também pode levar ao sofrimento ou à morte.
O livro é dividido em três partes, tendo seus melhores momentos no período entre a década de 1950 e os anos mais negros da ditadura militar. Basta, porém, ler algumas linhas para já se sentir ambientado no Norte do País. É o que ocorre logo no início da obra, quando o personagem Gedeão salta da rede e tropeça em alguns “paneiros de farinha empilhados no piso de chão-batido da casa”, procurando a “tênue claridade que penetrava pela porta de palha”.
A casa do caboclo Gedeão é uma aula de Amazônia. Feita de madeira e palha, é amarrada com cipós e enviras, sem o uso de um único prego. Os quartos são estreitos e as portas, baixas, “uma terrível armadilha para as testas desavi-sadas”. Não há janelas e os objetos que dominam a casa são a garrafa com água, a lanterna de pilha e a espingarda.
Embora o livro não seja um documento jornalístico ou sociológico, reúne as qualidades de ambos, pois apresenta dados para compreender melhor o cotidiano dos moradores da Amazônia. Um exemplo está na página 317, onde é narra-do como uma sucuriju enorme engole um sapo. É descrito como este último “enchiase de ar, ficava mais grosso, não queria passar pela goela da fera, mas ia passando”. Como último esforço, o pequeno sapo “ainda abriu as perninhas na esperança de ficar entalado na garganta da cobra”. No entanto, “com as perninhas cansadas”, finalmente sucumbiu à força descomunal da fera.
A imagem é uma metáfora do livro. Ele desafia e devora o leitor desde o início. Feito sucuriju, abre sua bocarra e obri-ga a penetrar num universo denso. Não adianta resistir. Uma vez dentro da boca deste livro-serpente, o destino é conhecer os seus interstícios plenos de um fazer artístico solidamente urdido, elaborado com mãos de mestre.
Mas o romance não é apenas uma declaração de amor à natureza ou ao homem do Amazonas. Questões sociais permeiam o livro com precisão, abrindo chagas na História nacional. Quem desejava conhecer o melhor da literatura so-bre o Amazonas tinha que passar por “A Selva”, de Ferreira de Castro; “Marajó”, de Dalcídio Jurandir; “Cabanos, Capital: Cabânia”, de Santana Pereira, e Márcio Souza, com seu já clássico “Imperador do Acre”. Agora, para alegria de todos que amam a literatura nacional, “A espera do nunca mais” é uma nova parada obrigatória rumo ao conhecimento filosófico e existencial da Amazônia.

*OSCAR D’AMBROSIO é jornalista, crítico literário e autor de “Os Pincéis de Deus” (Ed. Unesp)


Por: Oscar D'Ambrosio


A saga de um naturalista devorado por canibais em ritmo de folhetim

DIRCE LORIMIER FERNANDES*
(O Globo, 08/05/2004, Rio de Janeiro)

Depois de estrear em 1999 com “A espera do nunca mais”, uma saga amazônica de 876 páginas, prêmio Lima Barreto-Brasil 500 Anos da União Brasileira de Escritores (UBE), o paraense Nicodemos Sena reaparece com “A noite é dos pássaros”, seu segundo romance, uma dessas obras capazes de transitar entre os vários mundos a que pertence o homem.
De forma eloqüente, traz para o presente o diálogo entre a História e a Literatura dos séculos de desbravamento do Brasil. Recriando e desfazendo mitos existentes a respeito da relação entre o europeu e o elemento nativo, faz da narrativa uma boa maneira de atualização de conceitos, ou, pelo menos, reorganiza o objeto de observação a partir de um outro ponto de vista, que tem a responsabilidade em preservar um panorama distinto, que agora se constitui em romance.
“A noite é dos pássaros” traz uma homenagem a Alexandre Rodrigues Ferreira, que, embora tenha nascido na Bahia em 1756, é, a bem dizer, português, pois, com apenas 14 anos, partiu para Portugal, só retornando ao Brasil em 1783, como naturalista formado na Academia de Coimbra. No Grão-Pará (hoje Amazônia, onde nasceu Nicodemos Sena) e Mato Grosso, Alexandre Rodrigues Ferreira pesquisou, durante dez anos, as nossas riquezas naturais, do que resultou a sua “Viagem Filosófica”. Na obra de Nicodemos, o cientista aparece sob o codinome de “Alexandre Rodrigo Ferreira”, aprisionado na foz do rio Amazonas pelos índios tupinambás, canibais que têm uma certa predileção em alimentar-se de portugueses, considerados inimigos de seu povo.
No cativeiro, Alexandre encontra um livro, que veio parar na aldeia após um naufrágio. A obra encontrada narra a história de Hans Staden, um alemão que também fora prisioneiro dos índios tupinambás em uma aldeia de Ubatuba, litoral de São Paulo, no século XVI. Trata-se de uma história real, da qual o autor retirou alguns elementos e boa parte do roteiro do romance, sem prejuízo para a ficção, cuja originalida-de está no “como” a história é convertida em estória, e não no “quando” ou no “onde” transcorre a ação.
Publicado primeiramente no jornal “O Estado do Tapajós”, “A noite é dos pássaros” tem os principais ingredientes do folhetim — suspense contínuo; enredos que se imbricam gradualmente, numa intencional mistura de tempo e espaço, etc. Entretanto, o romance é mais do que a simples história de amor entre a índia Potira e o naturalista. Questões como o choque entre culturas e a combinação veracidade & ficcionalidade são abordadas. Nota-se a intensa pesquisa. Informações, idéias e costumes do século XVIII permeiam a ficção, numa refinada e complexa rede de referências, sem retirar-lhe a leveza. A utilização da língua tupi nos diálogos dá um sabor especial ao texto e permite ao leitor “vivenciar” o momento histórico.
“A noite é dos pássaros” dialoga com outras obras de escritores brasileiros. Como o herói de “I-Juca-Pirama”, Ale-xandre Rodrigo Ferreira será devorado em ritual antropofágico, porém, admite, perante o algoz, que não é um guerreiro e não se envergonha de demonstrar medo da morte. Como no “Macunaíma”, Nicodemos retoma lendas indígenas, misturando o real e a fantasia. Parte dos “fatos”, mas a estes não se prende, já que tem uma visão muito particular das coisas.
Sem perder o pulso da narrativa, deixa que seus “pássaros” voem com a imaginação. Infelicitado pela morte imi-nente e anunciada, o narrador de “A noite é dos pássaros” busca nos sonhos um sentido para a vida, recupera o sentido original da cultura indígena, criando marcantes personagens, como a apaixonada Potira, que acompanha Alexandre durante toda a trama. E recria alguns mitos, como o de Sumé, o “cariua catu” (branco bom, em tupi), que alguns crêem ser a própria figura de São Tomé entre os índios. Enquanto no livro de Hans Staden (“Duas viagens ao Brasil”) o homem branco e o Deus que o governa são os elementos principais, no romance de Nicodemos Sena o índio é valorizado.
Por tais nuanças, que revelam o vigoroso estilo e intensidade do autor paraense, “A noite é dos pássaros” merece um lugar de destaque. É uma obra fascinante, na qual o escritor transpõe as barreiras impostas pela mediocridade e voa em todas as direções, sonhando, deixando-se levar pelas asas de seu rico imaginário, entregando-se aos espíritos que habitam a natureza, lá onde está a sabedoria, o medo lutando contra a valentia, a metáfora da vida e da morte.

*DIRCE LORIMIER FERNANDES é doutora em História da Cultura, pela Universidade de São Paulo (USP), crítica literária, autora de “A Literatura infantil” (Ed. Loyola)



Por: Dirce Lorimier Fernandes


Universo metafórico

Por CAIO PORFÍRIO CARNEIRO*
(Estado de Minas, 20/12/2003, Belo Horizonte)

Tem-se a impressão, ao início do livro, que Nicodemos Sena traçou o seu segundo romance, “A noite é dos pássaros” (Editora Cejup, 2003, 136 p.), em parâmetros mais ou menos similares ao drama de Hans Staden, preso indefeso dos índios, que entrou, com sua narrativa espetacular, pelos caminhos da fantasia, da literatura juvenil e chegou ao cine-ma. Mas se vê, logo a seguir, que é outra a verdadeira “explosão” ficcional deste livro. Centrada em 1750, Nicodemos “revolve, de maneira surpreendente, a vida nativa da foz do rio Amazonas... tendo como tubo de ensaio os costumes indígenas, sobretudo o canibalismo, que ameaça, em suspense, no correr de toda a estória, a personagem central do romance...”. Vem ao vivo até, em pincelada rápida, o indigitado Dom Pero Fernandes Sardinha, devorado pelos caetés lá pelo idos de 1556.
Tudo isto é pano de fundo; tudo isto é apenas tomada de cena histórica; tudo isto é lembrança do tema a ser tratado aqui, centrado na Amazônia setecentista. O personagem narrador, prisioneiro dos aborígenes, que pensam transformá-lo em banquete “bárbaro”, vive não apenas o mundo real e selvagem. Este é o ponto nodal da obra, que caminha para o a-legórico, o fantástico, o mistério, o sonho, as lendas, a espiralação poética, sem desestruturá-lo. Ao revés, valendo-se desse jogo cênico, meio épico e mágico, e de linguagem personalíssima, que caminha do melhor lavor literário ao praticamente anedótico, com expressões populares bem atuais, este escritor vai tecendo a história de suspense em suspense. E de surpresa em surpresa. Surpresa em tudo: do profundo co-nhecimento do falar dos nativos ao envolvimento pleno em seus hábitos e costumes. São tantas as expressões do falar indígena (com as respectivas traduções entre parênteses), que pouco faltará para que esta obra venha a ser bilíngüe.
O narrador é vítima, jovem português, que balança entre o ateísmo e a religiosidade, conforme as motivações por que passou, é um caso sério, é personagem único na nossa literatura. Ele e o seu amor Potira, filha do tuxaua, compõem uma dupla que ciranda e ciranda, em altos e baixos, em todo o texto, conforme os ventos e vendavais do andamento da história. Ela não chega a ser uma Iracema alencarina, e nem poderia, porque é uma índia “moderna”, que viveu há 250 anos. É que o autor foge belamente de qualquer padrão didáti-co e não segue uma linha narrativa uniforme. Daí, a “explosão” de novidades literárias já referidas; daí a instigância da obra; daí a sua originalidade. O sonho e a realidade se fundem e se completam. Os últimos capítulos são antológicos, caminham para a problemática filosófica entre a Vida e o após Vida, e se espiritualizam em poema pleno, particularmen-te quando a ave caburé-açu fala com o jovem português.
O autor informa que pesquisou muito para escrever este romance e a vida dos tupinambás. Pois o resultado foi com-pensador. Está aqui, nesta obra valiosíssima, onde arte criadora alcança picos de belezas admiráveis, pela magia do como dizer do autor.
“A noite é dos pássaros” é muito mais que um romance calcado em documentos. É uma roldana mágica, envolvente, com vigor criativo notável na tessitura da vida dos nativos e suas heranças culturais, da floresta, seus animais e pássaros, onde o jovem português e sua amada Potira, que o salvou da morte no último momento, envolvem-se e nos envolvem também nesse mundo estranho e fascinante, real, emblemático e metafórico.
Romance, e quase Canto, para ser lido, sentido, e dele não mais se esquecer.

*CAIO PORFÍRIO CARNEIRO é ficcionista, autor, entre outros, de “O sal da terra” (Ed. Ática)


Por: Caio Porfírio Carneiro


Um novo olhar sobre a Amazônia

Por RONALDO CAGIANO*
(Jornal "Opção", 13/07/2003, Goiânia)

Ganhador do Prêmio Lima Barreto-Brasil 500 anos, da União Brasileira de Escritores (UBE) com o romance “A Espe-ra do nunca mais” (Editora Cejup, Belém, 1999, 874 p.), o paraense Nicodemos Sena estreou em alto estilo, demonstrando o vigor e a consciência estética dos veteranos. Sua carreira literária começa calcada em um referencial estético distinto.
Nesse caudaloso romance, que faz o meio-termo entre a ficção e a realidade, o autor se esmera numa linguagem que poderia ser caracterizada por alguns como simbólica do regionalismo amazônico, nos moldes de transposição ou re-leitura roseana da vegetação e dos rios do Norte. No entanto, qualquer rotulação seria imprópria, em razão da particularida-de de uma proposta ficcional que tem elementos de saga he-róica e de quixotismo, na medida em que explora, numa linguagem tão densa quanto poética, a realidade cabocla da selva, um sertão bastante diferente da crueza e dos sofrimentos de regiões geográficas hostis pelo clima e pela geografia, como aqueles contados por José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa.
Na narrativa de Sena, a linguagem resiste aos conhecidos clichês regionalistas e desloca-se, com especial fluência e jorro imagético, para uma outra realidade fática, em que o discurso desvia-se da retórica limitadora — e muitas vezes pastichizadas — das prosas similares contemporâneas, para projetar um outro sentido, um outro modo de escrever sobre a vida e os costumes da região amazônica.
Em “A espera do nunca mais” não é o raquítico habitante da seca — sempre em fuga, em permanente desacordo com a natureza e em constante êxodo — que está representado neste romance de fôlego. Embora seja outra a gente, os sentimentos que delineiam suas vidas são análogos, porque se aqueles lutam contra a causticante realidade de privações buscando a sobrevivência, aqui, Nicodemos Sena expõe personagens que se debatem contra outras adversidades, na tentativa de sobreviver ao inferno verde, a uma densa e rica massa vegetal que tanto os domina, quanto desperta fascínio.
Não obstante a saga ocorrer numa região cobiçada e motivadora de engajamento social, político e ideológico, os personagens desse livro não carregam a limitação de apólogos da luta ecológica ou porta-vozes do ideal de sustentabili-dade, que seria natural em obra desse jaez, com o perigo de cair na pieguice sentimentalóide, e aí a literatura estaria em segundo plano, cedendo espaço à sedução da denúncia e descambaria para o enfoque histórico-sociológico. Há uma autonomia, um certo grau de independência da narrativa, que coloca o homem e os obstáculos da vida na floresta como leitmotiv.
Ambientando numa época em que a consciência ecológica ainda engatinhava, o romance compreende os anos simbólicos da década de 50 passada, encontra a ditadura militar pós-64 e vai tecendo com habilidade e desenvoltura outras histórias que se interpenetram, vão se amalgamando de uma maneira vertiginosa, num fluxo de consciência e ação, cujos protagonistas fazem, na verdade, uma interpretação do modus vivendi e das condições numa região em que a pobreza não é tão contrastante com o fausto e a riqueza dos bens e belezas naturais.
O que sobressai é o contraponto entre culturas e valores. E numa época de transformações velozes, os diversos agentes da história local se confrontam, motivados pela urgência de uma sociedade em franco processo de evolução, sobretudo com os tentáculos de uma nova era — a industrial e a eletrônica — provocando um escalonamento brutal de va-lores. O caboclo, o índio, o homem branco, o extrativista se vêem, lentamente, cooptados pelos novos tempos e aí se firma um embate avassalador da tradição e do arcaico com a modernidade e as mudanças. O autor registra essa metamor-fose, deixando entrever as repercussões sociais e humanas na vida de um povo que, lenta e dolorosamente, presencia o enxerto das novidades e a amputação de seus costumes. Traduz, às vezes com a tinta da fantasia e do supra-real, um ambiente monumental, uma atmosfera mítica e exponencialmente perturbadora, porque retrato do homem em sua rela-ção com seu mundo e suas transformações.
Nessa história de citações belíssimas, poéticas e vertiginosamente realistas da Amazônia, personagens como Gedeão e Diana traduzem fielmente essa geografia humana e social com seus instigantes processos de relação. Diante de uma paisagem que condensa mistérios arrebatadores, o homem cria seus mundos e neles projeta-se oniricamente, ex-pande fabulosamente seus desejos materiais e afetivos.
A Região Norte continua intocada em muitos pontos, mas o homem continua a abrir feridas na selva. Há muito es-paço para conhecer essa realidade marcada de nuances e misticismo. Muitos têm tentado interpretar esse povo e sua região, como Márcio Souza, Dalcídio Jurandir, Thiago de Me-lo e Ferreira de Castro, que nos legaram obras antológicas sobre a região. Sem demérito para eles, creio que Nicodemos Sena ousou na força da linguagem e no desenrolar das tra-mas, com isso pretendeu (e alcançou sobejamente) formular um diálogo com a natureza desafiadora de uma região muito explorada (e agredida) pelo homem e pouco visitada pela literatura. O autor abriu mais uma picada, numa perspectiva re-flexiva e conceitual sobre a realidade dos habitantes amazô-nicos, ajudando-nos a desvendá-la e repensá-la, dentro de uma preocupação humanista e sob um prisma questionador e filosófico, sem, contudo, cair no desbunde alucinatório e exacerbado das lendas nem deixar-se conduzir pelos estereótipos de um regionalismo mascarado.

*RONALDO CAGIANO é escritor mineiro radicado em Brasília; autor, entre outros, de “Canção dentro da noite”


Por: Ronaldo Cagiano


A Amazônia resgatada

Por ADELTO GONÇALVES*
(Jornal "O Primeiro de Janeiro", suplemento Das Artes das Letras, 20/12/2004, Cidade do Porto, Portugal)

Nicodemos Sena, nascido em Santarém, no Pará, em 1958, estreou com um livro-monumento – “A espera do nunca mais: uma saga amazônica”, romance de 877 páginas (Belém, Editora Cejup, 1999) –, que ganhou em 2000 o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, da União Brasileira de Escritores, e já está em segunda edição. Agora, o romancista volta com um livro de menor fôlego, “A noite é dos pássaros”, igualmente uma extraordinária saga amazônica, a aventura de um naturalista que quase foi devorado por canibais na metade do século XVIII.
Para o conhecedor da História luso-brasileira, não é preciso dizer que este livro é inspirado na vida do baiano Ale-xandre Rodrigues Ferreira, que, nascido em 1756, viajou, aos 14 anos de idade, para Portugal, retornando ao Brasil em 1783 como naturalista formado na Universidade de Coimbra. No Grão Pará e no Mato Grosso, Ferreira esteve por uma dé-cada, pesquisando as riquezas naturais do sertão e fazendo anotações de que resultou o livro Viagem Filosófica pelas capitanias do Grão Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá (Rio de Janeiro, Conselho Federal de Cultura, 1974).
Em “A noite é dos pássaros”, o pesquisador setecentista aparece um pouco disfarçado atrás do nome Alexandre Rodrigo Ferreira, naturalista formado na Academia de Lisboa, que, em 1751, é aprisionado na foz do rio Amazonas por índios tupinambás, canibais famosos no velho mundo pelo modo hospitaleiro com que tratavam os seus prisioneiros, “dan-do-lhes do bom e do melhor, e de um tudo, para depois devorá-los a “cauim pepica”, ou seja, assados e regados com bebida.
No cativeiro mantido por um povo ágrafo, Alexandre descobre um livro que foi parar na aldeia depois de um naufrágio. A obra narra uma trajetória semelhante à do cativo, a do alemão Hans Staden, que também fora prisioneiro dos tupinambás numa aldeia em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, no século XVI. Como se vê, a exemplo do que Velázquez fez no seu famoso quadro “Las Meninas”, que faz parte do acervo do Museu do Prado, em Madri, Sena deixa exposto o seu trabalho de artesania. Leva, assim, o leitor a perceber que retirou do livro "Duas viagens ao Brasil – arrojadas aventuras no século XVI entre os antropófagos do Novo Mundo" (São Paulo, 1942), de Hans Staden, boa parte dos elementos que empregou no romance, buscando num relato de um acontecimento que se supõe real o material que empregaria em sua ficção. Muniu-se, portanto, da realidade para mentir melhor, como fazem todos os grandes mestres da ficção.
Engana-se, porém, quem imagina que “A noite é dos pássaros” seja apenas um romance baseado em pesquisas de arquivo, de foro documental. É mais que isso. Tal como fizera em “A espera do nunca mais”, Sena constrói ainda um instigante ensaio dos costumes dos indígenas brasileiros, sobretudo o canibalismo, que ameaça durante toda a narrativa a vida do jovem prisioneiro. Embora protegido pelo amor de Potira, a filha do cacique da tribo, só ao final da trama, o naturalista escapa da triste sorte que tornou famoso dom Pero Fer-nandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil, devorado pelos índios caetés na costa de Alagoas, ainda no século XVI.
Depois de Márcio Souza e Milton Hatoum, a Amazônia volta de novo ao cenário literário com um romancista seguro, que, a exemplo de seu livro de estréia, mostra que sabe como manter o suspense até o último parágrafo, fazendo o leitor vi-ver a situação aflitiva de seu personagem, ao mesmo tempo em que o leva a conhecer o conflito étnico-cultural que se dá entre o europeu civilizado e o homem ainda no estado bruto da natureza.
Para alcançar esse objetivo, o autor não hesitou em usar o tupi antigo na fala dos personagens, não por acreditar que se possa voltar ao passado ou por filiar-se a certo nacio-nalismo xenófobo, como diz, mas por dois justos motivos que expõe em nota ao final do livro: primeiro, por irresistível apelo da própria narrativa e, segundo, “pela grande importância que essa língua apresenta para a cultura brasileira, tendo servido de argamassa para grandes obras de nossa literatura”.
Não faz Sena um retorno tardio ao indigenismo de José de Alencar, até porque a linguagem que usa nada tem do der-ramado estilo oitocentista do autor de Iracema, mas não há como deixar de compará-lo ao indigenismo hispano-americano do paraguaio Augusto Roa Bastos e, principalmente, do peruano José María Arguedas. Se em Arguedas o que se lê é um castelhano tomado pelas características do quéchua, em Sena é o português contemporâneo que ganha ritmo e vocabulário do idioma tupi.
Como a poeta e escritora Olga Savary já percebera em seu livro de estréia, Sena domina a arte da narrativa, seduzindo o leitor com um estilo impecável, que faz da palavra um espetáculo, tal como a Amazônia com sua exuberante floresta.

*ADELTO GONÇALVES é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage –O Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003)


Por: Adelto Gonçalves


Paraense faz boa ficção com ‘anos de chumbo’ e choques entre culturas

Por OLGA SAVARY*
(O Globo, 03/03/2001, Rio de Janeiro)

Livros há que penalizam árvores, esses generosos seres da natureza que, além de tudo o que doam ao planeta Terra (o equilíbrio ecológico, sombra e tudo o mais), dão a celulose necessária à fabricação do papel para os livros dos es-critores. Quando vejo um mau livro, o primeiro pensamento que me vem é este: coitadas das árvores! Este desperdício imperdoável remete à idéia de que a escritura nasce bem antes de ser escrita. Arte é "coisa mental", já afirmava Leonardo da Vinci. Poesia, por exemplo: deveríamos viver em estado de poesia, o que certamente nos faria mais felizes.
É uma alegria quando nos deparamos com um livro como "A espera do nunca mais" (Editora Cejup, 876 páginas), esta extraordinária saga amazônica, narrada com sedução, seriedade, poesia. Forma e estilo são impecáveis nessa estréia, que nem estréia parece, de tão madura. Todo o livro, o primeiro do paraense de Santarém Nicodemos Sena, em suas 880 páginas, é uma exaltação à palavra, lavra que o autor utiliza como veículo para contar inúmeras histórias entrecru-zadas dos seres amazônidas, habitantes genuínos dessa esplendorosa floresta, ícone nacional. Quando pensamos em Brasil, três palavras traduzem o espírito do nosso país: Amazônia, futebol e carnaval.
Da primeira, a Amazônia, trata "A espera do nunca mais". Menino criado na beira do rio, habituado às caçadas nas brenhas da mata e aventuras, Nicodemos desde cedo se embrenhou também na viagem maior que é a literatura. Leu os bons autores, principalmente os brasileiros, e entre eles os grandes paraenses, de quem se confessa devedor, como Inglês de Souza, Ferreira de Castro – que não era da região, mas escreveu sobre ela, assim como o poeta Raul Bopp, gaúcho de alma amazônica, com seu magistral "Cobra Norato" – Dalcídio Jurandir e Benedicto Monteiro.
Machado de Assis e Márcio Souza também estiveram entre suas leituras precoces, entre tantos mais. Aos 13 anos escreveu uma aventura longa, sua primeira incursão literária, depois destruída, a que intitulou "O inferno verde". O menino que se deslumbrava com os mestres da literatura brasileira, hoje, com estas alentadas páginas de "A espera", está sendo comparado pela crítica a Graciliano Ramos e João Ubaldo Ribeiro, dois autores de sua especial preferência. É inegável, pelo menos, o parentesco. Para Nicodemos Sena, literatura é opção de vida e tem função social, devendo contribuir para tornar o homem melhor e o mundo mais suportável, com as pessoas mais tolerantes.
Nascido em 1958, o santareno Nicodemos Sena foi em 1977 para São Paulo estudar, tendo se bacharelado em jornalismo pela PUC e em direito pela USP. Residiu anos em São José dos Campos, para onde deverá retornar agora em 2001, após ter cumprido em 2000 a tarefa de diretor de redação do jornal "A Província do Pará". Após lançar "A espera do nunca mais" em Belém, Santarém e São Paulo, e ter recebido o Prêmio Lima Barreto-Brasil 500 Anos, da União Brasileira de Escritores, no Rio, Nicodemos já prepara o segundo romance.
Rigoroso com a sua própria criação, o autor não pretendeu escrever um romance "ecológico" ou "histórico", coisa que para ele seria mais fácil mas perigoso, podendo cair numa vertente piegas. Preferiu o caminho mais árduo da saga amazônica, cujo cerne situa-se na década de 50 em diante até os derradeiros "anos de chumbo" da malfadada ditadura militar, quando o capital internacional se instalou na Amazô-nia. Interessa-o flagrar o choque cultural entre as duas culturas, a do branco e a do índio, de como os valores de uma sociedade industrial tentam engolir, qual uma cobra-grande engole na narrativa um pequeno sapo, a sociedade autóctone e arcaica do caboclo desta região majestosa e vilipendiada.
De muita pesquisa, imaginação e criatividade resultou esta obra monumental, iniciada há cerca de dez anos, quando Nicodemos se questionou sobre que forma usar: naturalista? fantasiosa? realista? Decidiu-se por uma harmoniosa dosagem de todas estas vertentes, e mais muita poesia e huma-nismo, que sem estas duas últimas nada de criação vale a pena. Bebe o autor na fonte de mistério das muitas águas amazônicas, porém escapando do regionalismo limitador. Não esquecendo, no entanto, o que dizia Leon Tolstoi: pinta tua aldeia e pintarás o mundo. E que o leitor não se engane: como nas lendas indígenas, a trama é linear apenas na apa-rência, uma vez que a sinuosidade dos rios e igarapés é vo-lúpia pura.
Um ano levou ele lendo e pesquisando, mais quatro anos só escrevendo, e depois um ano e meio lapidando o texto. Ou seja: quase sete anos de paixão pelo trabalho. Um trabalho extenuante? Com certeza, porém o autor se deparou com uma monumentalidade a que já não podia recuar, semelhante à cobra-grande querendo engolir o seu criador, no ca-so, imaginador. "A espera", na verdade, contém três roman-ces dentro de si, até porque, como diz o autor, os problemas da região se avolumam. O livro não poderia senão refletir e representar a magnificência da Amazônia, tanto na sedução de suas lendas, quanto na de seus problemas. "A espera do nunca mais", de Nicodemos Sena, é uma lição de literatura e de brasilidade.

*OLGA SAVARY é poeta e escritora, autora, entre outros, de “Repertório Selvagem”


Por: Olga Savary

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